Solidão

“Se ela aparecesse numa festa, todo mundo iria embora”. Foi o que eu ouvi um menino da minha sala no ensino médio dizer, como uma piada, pros amigos. Eu tinha depressão. Naquela época eu não sabia ainda mas eu já apresentava todos os sinais. Mas eu nunca entendi porque as pessoas faziam questão de apontar e rir de mim e da minha solidão.

“Eu não sei porque ela é desse jeito. A irmã dela é normal.” Foi o que eu ouvi um “amigo” da oitava série (hoje nono ano) dizer pra um colega, enquanto voltávamos pra casa como fazíamos todo dia. Eu ainda não tinha depressão. Eu tinha um grupo de amigos dos quais eu ficava junto todos os dias, quando não estava chorando escondida no banheiro do colégio. Eu nunca entendi porque eu fazia isso.

Eu cresci ouvindo tanto de “amigos” quanto de pessoas próximas e distantes que tem algo de muito errado comigo. Que eu sou a causa de todos os meus problemas porque eu sou “desse jeito”. Eu cresci ouvindo que não merecia ser aceita. Então aprendi a me isolar e a não confiar em ninguém. Passei a ver a solidão como amiga ao invés de carrasca. Acho que muitos diriam que isso só reforça o que todo mundo falou. Mas você não pode reclamar do que você mesmo criou. Até a pessoa mais solitária do mundo, mais reclusa do mundo, sabe o que as pessoas dizem e querem ser aceitas de alguma forma. Todo mundo quer. Eu acho que só cansei de esperar isso dos outros. Eu percebi que é hora de EU me aceitar. E embora ainda seja difícil pra mim fazer isso, eu espero que um dia eu possa ouvir o que os outros dizem e simplesmente ignorar, ao invés de internalizar e sofrer.

Terças poéticas: Desabrochar

Por que a rosa? Talvez alguém tenha percebido que eu uso muito emojis de flores e principalmente da rosa nas minhas postagens. Ou talvez não. Em todo caso, é principalmente porque…eu gosto de rosas. Sinto que gosto de flores em geral mas rosas são particularmente belas e acho que a maioria das pessoas se sente quase hipnotizadas por elas. Por causa disso, adotei a rosa como a “minha” flor.

Também tem o fato das rosas serem bonitas à distância, mas de perto perigosas por causa dos espinhos. Elas são convidativas, mas tem suas reservas e proteções, e é assim que eu me sinto em relação a outras pessoas na maioria das vezes. Por isso me considero uma pessoa “rosa”, digamos assim.

Por que resolvi falar disso? Porque oficialmente a primavera começou, no hemisfério sul pelo menos. E um dia eu escrevi um poema, que você pode ver no meu instagram, que é justamente sobre o medo de ver a primavera chegar e não ter crescido nem desabrochado.

Acho que todo mundo já ouviu aquela história “as flores não competem umas com as outras, elas apenas desabrocham”. Às vezes penso nisso e no quanto, pelos meus próprios padrões, talvez não tenha desabrochado ainda. Isso é algo que ainda me traz bastante tristeza e ansiedade de vez em quando. Aí lembro de outra frase que eu amo, de Mulan: “A flor que desabrocha na adversidade é a mais rara e bela de todas”. É o que eu sempre me lembro quando eu coloco um dos meus japamalas no pescoço. Eu posso não ter o sucesso que eu quero, ou o dinheiro que eu quero, mas eu tenho saúde, eu cresci mentalmente e espiritualmente, eu estou aprendendo a deixar o passado pra trás e me tornar uma pessoa melhor. E logo, eu percebo que eu estou desabrochando, só não no ritmo das outras flores. E tudo bem.

Se você sente que está parado, sem crescer…Eu só te digo uma coisa: Comece a apreciar a beleza da primavera agora e logo você verá que está criando pétalas também. Deixe-se desabrochar, sutilmente, vagarosamente… como uma flor selvagem.

Música do dia: Roses/Lotus/Violet/Iris – Hayley Williams

Terças poéticas: Teia de aranha

Quando você cria um texto, é como se você fosse uma aranha diligentemente construindo uma teia. Enquanto você costura palavra em palavra, letra em letra, parece que tudo que você faz é só pra você. Você só vê a linha, você não vê o ponto final. Ou o design lindo que você já criou. Você só vê o meticuloso trabalho que está fazendo, linha por linha, mesmo que você esteja imaginando como vai ser o produto final.

Assim é a vida e todas as habilidades que resolvemos aprender. No começo talvez até sintamos que estamos fazendo tudo errado, principalmente se estamos aprendendo algo muito novo pra nós. Uma parte de nós talvez queira desistir. É nessa hora que é mais importante se desafiar a continuar.

Quando eu era criança, eu me desafiava com coisas sem sentido só pra me divertir ou pra sair de uma certa zona de conforto. Por exemplo, um dia me desafiei a tomar uma garrafa d’água de 1l o mais rápido que eu podia – por quê? Ninguém sabe. Mas eu virei a garrafa assim mesmo e acabei com a roupa toda molhada. Talvez pra outras pessoas aquilo tinha sido a maior burrice do mundo, mas pra mim era só diversão. Da próxima vez eu conseguiria. Nunca houve uma próxima vez, ainda bem, mas eu consegui aprender uma coisa: O próprio processo de aprender algo novo é algo a ser apreciado, mesmo que às vezes estejamos apenas costurando, feito a pequena aranha no canto da parede.

Porque no final, teremos alguma obra de arte que sim, pode parecer frágil, mas que dura pra vida toda. E veremos que os dias de suor valeram a pena. Nossa teia vai ser quase invisível, mas forte como as raízes de uma árvore.

Música do dia: Apple Tree – Aurora

[Terças Poéticas #2] Cristalina

Você já sentiu sensações estranhas quando estava ao redor de pessoas, digamos, falsas?
Já sentiu um certo nó no pé da barriga, quando falou com alguém?
É estranho não é?
É como se seu corpo reagisse a algo que não vê nem pode mensurar ou descrever.
Uns chamam de instinto, outros de intuição, outros de balela.
Mas se você parar pra pensar, vai perceber que, estar com pessoas tóxicas é como afundar numa poça de lama.
Lama ou água de esgoto. Da mesma forma te deixa se sentindo sujo e malcheiroso.
E ninguém gosta de gente suja e malcheirosa, ainda menos as pessoas tóxicas em si. Mesmo que todo mundo cheire mal de vez em quando.
Porque elas se entopem de perfume pra esconder a sujeira. E olha que é perfume de marca, hein? Importado.
Talvez você ache que porque essas pessoas roubaram sua paz e sua confiança em si mesmo, talvez seja tarde demais.
Talvez você sinta até que se tornou uma delas. Que elas conseguiram o que queriam e fizeram você parar de acreditar em si e no futuro.
Mas você não precisa ficar na lama. Pode parecer impossível mas…eu sei que logo à frente tem um lago, de águas cristalinas, esperando por você. Por nós.
Basta você dar o primeiro passo: Ser cristalino você mesmo. Não mentir, não enganar, nem aos outros nem a você mesmo. (não mentir pra si mesmo é sempre bem mais difícil, pelo menos pra mim)
E um dia você vai poder entrar na água e sentir a pureza curando suas feridas, te deixando pronto pra receber o melhor.
Você é especial. Você merece ser visto como um todo. Você não precisa mais se esconder na escuridão.
Você fica muito mais bonito com a sua luz refletindo nas águas cristalinas de um lago belo e pacífico.

Música do dia: Crystal Clear – Hayley Williams

[Terças Poéticas] Calmaria

Sabe aquela sensação de alívio quando o calor parece insuportável, e você sente um vento friozinho no fim da tarde?
Sabe aquela sensação de antecipação, quando você vê nuvens se formando no céu, e sabe identificar, que sim, são cumulus nimbus?
Sabe aquele medinho teimoso que vem quando começa a chuviscar, e você pensa: “Espero que não piore”?
E quando seus medos parecem começar a se tornar realidade e a chuva começa a engrossar, feito a sopinha que a sua mãe está preparando neste mesmo momento?
Sabe quando a tempestade começa, e as nuvens escurecem, e as pessoas começam a se afastar umas das outras, as ruas tomadas por uma melancolia cinzenta?
Sabe quando você olha pra baixo e vê que pisou em lama, e que isso vai acontecer ainda várias vezes no decorrer do dia?
Sabe quando você chega em casa, bem antes dos primeiros trovões começarem, e você sente aquele alívio e fascinação ao ver os raios cobrindo o céu, mas no seu interior, você está morrendo de medo?
Esse ventinho que virou tempestade, essa semente que virou um jardim, essa faísca que virou uma explosão, sou eu, e é você e somos todos nós.
O mundo pode estar mudando, mas ainda reconhecemos a calmaria antes da tempestade. E a tempestade em si. Ela não traz dor além do que podemos suportar. Ela é a catalisadora da verdadeira mudança, que todos nós precisamos ter dentro de nós, de vez em quando.

Um dia, quando você olhar nos meus olhos, você verá os relâmpagos. E eu te direi: Eu sou a tempestade.

Música do dia: I of The Storm – Of Monsters and Men